20 maio 2006

A segurança em Cristo


“Assim também agora vós tendes tristeza; mas outra vez vos verei; o vosso coração se
alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar.”
Jo 16.22


A vida moderna muito tem nos acrescentado em termos de segurança e conforto. A ciência e a tecnologia têm realizado muito para expandir o conhecimento e promover o refinamento e a felicidade dos homens. Ao descobrir as leis da vida social e econômica o homem passa a organizar a sua comunidade com mais efetividade. Conhecendo as leis da natureza, o homem pode usar as forças naturais em função de seus próprios projetos e desejos.

Mas apesar desses benefícios, esse desenvolvimento nos propõe a ilusão de sermos os donos do mundo e de nossa própria vida. Nos propõe a ilusão de que podemos alcançar uma autêntica segurança organizando eficazmente nossa própria vida, pessoal e comunitária. O desconsolo,a secreta angústia que clama nas profundezas da alma quando pensamos que por nós mesmos podemos lograr nossa própria segurança. Porém, existem encontros e “acasos”[* ]que não podemos controlar.

Não existe nenhuma segurança verdadeira e definitiva, a não ser a segurança que temos em Cristo. A segurança de que nada sai de seu controle( Ec 7.15). A segurança de que o Espírito Santo nos tem consolado em todas as nossa angústias e tribulações( 2Co 1.4). A segurança de que a nossa tristeza se converterá em alegria( Jo 16.20). A nossa segurança está ligada à nossa esperança, a esperança de que as nossas tribulações são leves e momentâneas em relação à glória que está no porvir(2 Co 4.17). É essa a nossa esperança viva em Jesus Cristo, a esperança da ressurreição para a vida eterna
(1 Pe 1.3-5).

Deus nos exorta a renunciarmos ao nosso egoísmo e à ilusória segurança que temos construído( Mt 7.24-27). Neguemos pois a nós mesmos e tomemos nossa cruz( Lc 9.23)

[* ] Digo “acaso” porque nada ocorre ao acaso na vida um cristão.

05 maio 2006

A Teologia moderna


A influência da filosofia moderna

Uma característica muito comum da teologia nos séculos 19 e 20 é o abandono da história como característica da teologia e fé cristã, teólogos influenciados por bases racionalistas e existencialistas. Estes se submeteram às idéias do Iluminismo bem como se renderam à critica kantiana à religião.

Esses teólogos modernos investigaram a Palavra de Deus à luz de pressupostos filosóficos e construíram a sua teologia na base deles, existencialismo e fenomenologia, assim como pressupostos neoplatônicos e kantianos.

Segundo B.Mondin:

“[...] a utilização das novas filosofias e a pretensão de submeter a mensagem cristã a revisões radicais por meio das técnicas de desmitologização(Bultmann) e de secularização(Bonhoeffer) levaram ao suicídio e à liquidação da teologia[...]”.

Dessa forma também foram influenciados pela filosofia, Agostinho(Neoplatonismo) e Tomás de Aquino( Aristotelismo ). Mas a diferença entre os teólogos modernos e eles é que estes claramente reconheceram a primazia e a autoridade das Escrituras. Ambos se separaram de suas filosofias quando viam que elas conflitavam com as Escrituras. È à luz da Palavra de Deus que devemos julgar as nossas idéias pré-concebidas e não o contrário.

A bíblia como mito

Estes teólogos modernos nos remetem a uma noção de que a revelação divina nunca nos seja comunicada objetivamente, nem mediante fatos históricos nem através de proposições inteligíveis, mas nos seja apreendido de forma subjetiva, à base de uma resposta de submissão a Deus.

Segundo eles não é importante que aceitemos as narrativas como verdadeiramente históricas( a criação , queda e ressurreição), mas somente em termos de verdades teológicas que nos visam transmitir.

Segundo F.F.Bruce:

“[Esse] argumento só se poderá aplicar ao Cristianismo, se lhe ignorarmos absolutamente a essência. O evangelho não é primariamente um código de ética ou um sistema de metafísica, é acima de tudo mais Boas novas e como tal foi proclamados pelos núncios primitivos...E esta afirmação como Boas novas está estreitamente ligada à ordem histórica, pois que nos fala ela de como Deus penetrou na história. O Eterno invadiu o tempo, o Reino dos céus se impôs à ordem terrestre nos grandes eventos da encarnação, crucificação e ressurreição de Jesus Cristo afim de promover a redenção da humanidade” .

Estes, denominados neo-ortodoxos( há quem os chame liberais), que se consideram verdadeiros herdeiros da reforma e detentores do pensamento genuíno dos reformadores, acabam por negar a historicidade do cristianismo conferida pelas confissões de fé ao longo da história da igreja.

Segundo o credo apostólico:

“Jesus Cristo seu Filho unigênito, nosso Senhor...padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos

E na opinião de C.S.Lewis:

O cânon que estipula, “se é miraculoso, não é histórico”, é uma regra que os críticos impõem aos seus estudos dos textos sagrados, e não um princípio que deduziram desses textos. E já que estamos falando em autoridade, a autoridade conjunta de todos os críticos bíblicos do mundo é aqui considerada como zero. Quanto a isso, os críticos falam apenas como homens; homens obviamente influenciados pelo espírito da época em que cresceram, espírito esse talvez insuficientemente crítico quanto às suas próprias conclusões”.

Conclusão

Devo ressaltar que:

“Não quero com isso dizer que a teologia deva voltar à asseveração simplista de que a evidência da revelação de Deus na história é tão esmagadora que só uma pessoa cega ou perversamente irracional não a reconhece. Dessa forma a fé reduzir-se-ia a um reconhecimento frio dos fatos. A história não é a revelação e nem a revelação é a história.[...]Se existissem fatos indubitáveis, com apenas um interpretação possível, a fé não seria necessária. E não haveria um compromisso com a pessoa(Jesus Cristo) que demanda a auto-entrega, a confiança e o crédito – enfim, a fé, com a plena evidência disponível no futuro. Por outro lado, se não existisse fato algum, a mensagem seria uma ‘interpretação’ arbitrária e ridícula de coisas que nunca aconteceram. Contudo, este, ‘decisionismo’ é o que encontramos em vários teólogos modernos.[...] para evitar esse desfecho, devemos insistir no elemento histórico da mensagem cristã. A historia é a base necessária, embora não suficiente, da fé.” Klaus Bockmuehl


01 maio 2006

O mistério das ações de Deus

"...se não for Ele, quem será então?" Jó 9.24b

Uma coisa que sempre me intrigou, e não somente a mim, é a questão do sofrimento do justo nas mãos de um Deus justo. E quando eu digo justo, não é no sentido de não ter pecado algum, mas no sentido de alguém que se consagra a Deus.


Sobre o livro de Jó

O livro de Jó geralmente é definido e tem como marca principal o seguinte tema: “O sofrimento do Justo”. Eu melhoraria essa definição e chamaria de “A soberania de Deus e o sofrimento do Justo”. Esta soberania presente nos momentos de dor e alegria, nos momentos de choro e de risos, nos momentos de humilhação e de glória.

E como diria O Pregador:

"Em tempo de felicidade, sê feliz, e no dia da desgraça reflete: Deus fez tanto um como o outro, para que o homem nada encontre atrás de si." Ec 7.15

Entre os escritos do Antigo Testamento, o livro de Jó, junto com Eclesiastes, figura como um tipo de anti-sabedoria. Ele se opõe à sabedoria tradicional ao confrontar a difícil questão do sofrimento com a afirmação de que Deus é bom e justo.

Jô “luta” com Deus e lhe fala de suas dúvidas e temores. Seu relacionamento com Deus é vivo enquanto o de seus amigos não passa de aforismos mortos.

Duas formas de se reagir a uma situação que se sobrevém de forma extrema, além das nossas forças, e além do nosso poder de resolvê-la(2 Co 1.8):

1)Desespero: essa é reação mais típica de quem não conhece e não concebe em sua mente e coração a Soberania de Deus. Não concebe a vida além das coisas materiais. È a reação de quem construiu a sua casa na areia e que desmorona na primeira tempestade.

(“tudo vai bem , quando tudo está bem”)Esdrúxula frase da autoria de Brook Shields, citada pelo Rev. Luis Fernando na pregação de domingo na IPV. Essa frase resume bem a reação citada acima.

2)Perplexidade: essa é reação mais típica da pessoa que não enxerga o mundo em outros moldes a não ser sob as lentes da Soberania de Deus. Esta foi a reação de Jó,( Jó 23.12-14; 12.9; 9. 24b), e a reação citada por Paulo quando ele diz que, “Somos atribulados por todos os lados, mas não esmagados; perplexos mas não em desespero...”2 Co 4.8,9.

Crer na soberania de Deus dizem alguns, é pôr a culpa em Deus. Eu diria que é confiar e por fé acreditar que nada escapa ao seu controle, mesmo que a situação não aparente isso, mesmo em um sofrimento aparentemente injusto.


Um conselho para quem acha que está passando pela maior provação de sua vida:

“Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte”(1 Pe 5.6) e lembre- se que “depois de terdes sofrido um pouco, ele mesmo[Cristo] vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar” (1 Pe 5.10b).



Créditos desse post:

1)Aos autores dos livros de Jó e 2 Coríntios, isto é, Deus e seus respectivos servos por Ele usados, livros dos quais eu extraí as minhas conclusões acerca desse mistério, as ações de Deus;

2)Bíblia de Genebra, que me auxiliou com seus comentários sobre o livro de Jó;

3)Quimioterapia, instrumento nas mãos de Deus, que fez com que eu mergulhasse meu rosto no pó(Jó 16.15) e enxergasse o mundo de uma outra perspectiva, não muito confortável , para a Glória dEle.


Ao Cordeiro seja a glória pelos séculos dos séculos. Maranata!!!


"Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam" 1 Co 2.9(Is 64.4)