17 junho 2006

Eu e Thaís Moya no Congresso da ABU 2006







O extraordinário do ordinário.


“Não se joga uma vida inteira fora só porque ela está um pouco maltratada”*


Sempre ouvi que um dos pressupostos fundamentais de uma vida cristã é ter uma vida santa. Uma vida separada do mundo. Um mundo que jaz no maligno. Um maligno que anda ao meu redor procurando me devorar. Percebo, hoje, que tais idéias desacompanhadas de uma bem entendida concepção da GRAÇA em Cristo Jesus deformam o evangelho e, conseqüentemente, a vida cristã.

Facilmente confundimos a causa com os efeitos. Baseamos a caminhada cristã nos resultados e não na sua essência. Meu propósito não é desmentir a necessidade de uma vida santa, mas afirmar que uma vida santa como “um fim em si mesmo” é uma mentira. Pois nega o amor incondicional e redentor de DEUS dado a nós, manifestado na cruz por meio de seu Filho, Jesus.

Quando deturpamos este amor também começamos a esquecer que não há nada que podemos fazer para merecê-lo. Então, iniciamos uma caminhada inútil atrás deste merecimento. E, passo a passo, vamos nos afastando da GRAÇA de DEUS, em busca de uma super-espiritualidade que legitime nossa salvação.

Entretanto constantemente somos confrontados com nossa humanidade caída, que traz consigo o fracasso, a culpa, a dúvida, o medo e, conseqüentemente, a instabilidade espiritual. E esta pode ser fatal quando nossa espiritualidade está fundamentada em nós mesmos. Pois nossa credencial de santidade é invalidada e sentimo-nos largados, sozinhos e indignos de sermos chamados cristãos.

Ser um cristão é, antes de tudo, viver sustentado no AMOR gracioso do PAI. A partir disto conseguimos encarar nossas mazelas espirituais de frente, sem medo e sem dissimulação. Os dissimuladores não compreenderam a cruz e ainda vivem fantasiosamente como os semi-deuses e príncipes do poema de Fernando Pessoa.
“Toda gente que eu conheço e fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida....Quem me dera ouvir de alguém a voz humana que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há nesse largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Arre, estou farto de semi-deuses! Onde há gente no mundo?”


Jesus veio a este mundo para conviver, ensinar e morrer por esta “gente” procurada por Pessoa. Como o próprio Jesus disse , ELE não veio chamar os justos e, sim, os pecadores ao arrependimento. Portanto ignorar ou disfarçar nossa imperfeição é não aceitar Seu chamado completamente.

O primeiro contato com este chamado irresistível do amor de CRISTO tende a ser extraordinário! Nossas vidas borbulham entusiasmo e dedicação ao Mestre. Porém a rotina possui um poder enorme sobre o extraordinário e, aos poucos, mas eficazmente dissipa o entusiasmo em nós. E neste momento é imprescindível que nossa vida cristã esteja consolidada na GRAÇA e não em nossos resultados, para que consigamos prosseguir a caminhada e aperfeiçoarmo-nos no amor de DEUS.

Embora o extraordinário seja importante em alguns momentos específicos desta caminhada, é por meio do ordinário que nossas vidas são solidamente transformadas. É no ordinário que nossas máscaras atuam com intuito de esconder nossas imperfeições, logo, é quando elas podem “cair” definitivamente.Segundo Brennan Manning, os cristãos maduros que ele conheceu “ao longo do caminho são aqueles que falharam e aprenderam a viver de forma graciosa com seu fracasso. A fé requer a coragem de arriscar tudo em Jesus, a disposição de continuar crescendo e a prontidão de arriscar o fracasso ao longo de toda nossa vida” .

A tão falada “vida santa” é um aperfeiçoamento constante. A palavra APERFEIÇOAR é oriunda da palavra PERFEIÇÃO e, isto, só “obtemos” por meio do sacrifício de Cristo, o perfeito. Relacionarmo-nos com a perfeição não nos faz perfeitos, pelo contrário, traz a tona nossa imperfeição e é somente nesta ocasião que aprendemos quem realmente somos e o que a GRAÇA de DEUS significa.

Thais S. Moya
12 de Junho de 2006.

2 Comments:

At 10:05 AM, Anonymous FábioGN said...

Boa abordagem sobre o tema!
=)
Abraços

 
At 10:15 AM, Blogger Renato Luiz said...

Que belo texto!
Edificante...
Abração Lelê!
Deus te abençoe sempre!

 

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home